Sobre o que ainda hei de descobrir...
A ideia de voltar a escrever veio da possibilidade de isso me ajudar a entender e lidar com o diagnóstico de autismo que recebi há um mês atrás e desde então eu tenho fugido do meu próprio objetivo que é analisar o que isso tudo tem significado para mim. Mas uma hora a gente tem que parar de fugir então aqui estou, depois de frustrar várias tentativas da minha amiga de me incentivar a postar algo (me desculpe por isso Mih :D).
A verdade é que eu já imaginei que poderia ser autista há muitos anos quando comecei a descobrir mais sobre essa deficiência, mas no final das contas sempre concluía que me faltavam características cruciais para esse diagnóstico e então eu deixava pra lá. Mas a dúvida sempre me perseguiu, já que a sensação de que o mundo era demais pra mim nunca me deixou. Só existir era extremamente cansativo em alguns momentos, nos quais eu só queria entrar dentro de um universo paralelo onde absolutamente nada existia (nem sequer o tempo) e ficar lá por algumas horas antes de voltar para o mundo real. Ainda sonho com a possibilidade de que um dia a tecnologia possibilite isso, mas do jeito que as coisas andam é provável que o aquecimento global nos mate primeiro. O que também estaria tudo bem pra mim se o capitalismo não fosse me forçar a trabalhar parecendo o motoqueiro fantasma (sem moto) até a morte.
Vou tentar abordar alguns detalhes do diagnóstico em outro momento porque, por hora, eu só quero finalizar esse texto pra dar o pontapé inicial nesse processo de escrita.
O que importa por enquanto é que quando o diagnóstico veio eu não senti o alívio que eu esperava. Achei que sentiria os meus sofrimentos e dificuldades validados, que eu não me sentiria mais uma pessoa quebrada, defeituosa. Mas na verdade eu me senti traída. Principalmente devido ao resultado do teste de mascaramento que foi bem mais alto que a média. Senti como se eu tivesse traído a mim mesma. Me senti responsável por ter obrigado a criança que fui no passado a ser “normal” e o quanto isso deixou cicatrizes que talvez eu carregue para o resto da vida. Fiquei me perguntando se um dia eu conseguirei recuperar essa criança original, sem influências, sem repressões, sem medos, sem máscaras. Provavelmente não. No momento, estou tentando aceitar que tudo bem não recuperar, afinal, não há ninguém que permaneça seu eu original para sempre. Isso faz parte do processo de crescer, aprender e, essencialmente, viver. Mudar faz parte de viver. Talvez por isso viver pareça tão complicado para mim.
O segredo para eu resolver esse conflito dentro de mim provavelmente é encontrar o equilíbrio entre o que eu sou atualmente e o que eu sou capaz de desenterrar do que deixei para trás por achar que era inadequado demais para me acompanhar nessa jornada complicada.
Espero ser capaz de reaver algumas das coisas que abandonei e abraçá-las novamente como parte de mim. E aquelas que eu não estiver pronta pra abraçar, que eu possa guardar em uma caixinha especial para apreciar quando parecer certo.
Por hoje é isso. Se eu deixei alguma ponta solta, vai ficar para outra postagem, porque agora que eu cruzei a linha de partida espero continuar na corrida por algum tempo.
▶︎•|၊|။||||။၊|။|||။|||။ 4:01